Resumo | Lucíola

Resumo | Lucíola

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Lucíola é o quinto romance de Alencar e o primeiro da trilogia que ele denominou de “perfis de mulheres” (Lucíola, Diva e Senhora). Situa-se entre seus romances urbanos que representam um levantamento da nossa vida burguesa do século passado mais considerável do que o levado a efeito por Machado de Assis, na opinião de Heron de Alencar. Fixam o Rio de Janeiro da época, com a sua fisionomia burguesa e tradicional, com uma sociedade endinheirada que freqüentava o Teatro Lírico, passeava à tarde na Rua do Ouvidor e à noite no Passeio Público, morava no Flamengo, em Botafogo ou Santa Teresa e era protagonista de dramas de amor que iam do simples namoro à paixão desvairada.

Em todos os romance urbanos, Alencar aborda o amor como tema central. Ou, para ser mais exato, “aborda a situação social e familiar da mulher, em face do casamento e do amor” segundo Heron de Alencar. Mas o amor como o entendia a mentalidade romântica da época, “um amor sublimado, idealizado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de heroísmos e até de crimes, mas redimindo-se pela própria força acrisoladora de sua intensidade e de sua paixão.” (Oscar Mendes, in José de Alencar – romances urbanos, Rio de Janeiro, Agir, 1965, Col. Nossos Clássicos – p.10).

Baseando-se na enorme aceitação de Alencar junto ao público, Antônio Cândido comprova a existência de pelo menos dois Alencares:

O Alencar dos rapazes, heróico, altissonante, criando heróis como Peri, Ubirajara, Estácio Correia (As Minas de Prata), Manuel Canho (O Gaúcho), Arnaldo Louredo (O Sertanejo).

O Alencar das mocinhas, gracioso, às vezes pelintra, outras, quase trágico, criador de mulheres cândidas e de moços impecavelmente bons, que dançam aos olhos do leitor uma branda quadrilha, ao compasso do dever e da consciência, mais fortes que a paixão. As regras desse jogo bem conduzido exigem inicialmente um obstáculo, que ameace a união dos namorados, sem contudo destruí-la. Todavia, há pelo menos um terceiro Alencar, o que se poderia chamar dos adultos, formado por uma série de elementos pouco heróicos e pouco elegantes, mas detonadores dum senso artístico e humano que dá contorno aquilino a alguns dos seus perfis de homem e de mulher. Este Alencar, difuso pelos outros livros, se contém mais visivelmente em Senhora e, sobretudo, LUCÍOLA, únicos livros, em que a mulher e o homem se defrontam num plano de igualdade, dotados de peso específico e capaz daquele amadurecimento interior inexistente nos outros bonecos e bonecas.” (in Formação da Literatura Brasileira, 4ª ed., São Paulo, Martins, 1971, 2º vol. P.222).

O AMOR DE LÚCIA E PAULO

LUCÍOLA, publicado em 1862, é um romance de amor bem ao sabor do Romantismo, muito embora uma ou outra manifestação do estilo Realista aí se faça presente. Trata-se de um romance de “primeira pessoa”, ou seja, o narrador da história é um personagem importante da mesma, Paulo Silva. E ele a narra em cartas dirigidas a uma senhora, G. M. (pseudônimo de Alencar), que as publica em livro com o título de LUCÍOLA.

Paulo Silva, o personagem-narrador, é um rapaz de 25 anos, pernambucano, recém-chegado ao Rio de Janeiro, em 1855, com a intenção de aí se estabelecer.

No dia mesmo de sua chegada à corte (Rio de Janeiro), após o jantar, sai em companhia de um amigo para conhecer a cidade. Na rua das Mangueiras vê passar em um carro uma jovem muito bela. Um imprevisto faz parar o carro, dando a Paulo a oportunidade de repará-la melhor. Dia após, em companhia de outro amigo, o Dr. Sá, Paulo participa da festa de N. Senhora da Glória, quando lhe aparece a linda moça. Informando-se do amigo, fica sabendo tratar-se de Lúcia, a prostituta mais bela, requintada e disputada da cidade. Mas ele se impressiona com a “expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelam a cortesã franca e impudente.”

Mais ou menos um mês após sua chegada, Paulo vai à procura de Lúcia, levado, é claro pelo desejo de possuir aquela linda mulher. Após longa e agradável conversa, acaba se surpreendendo com o “casto e ingênuo perfume que respirava de toda a sua pessoa”. A um mínimo lance de seus seios, “ela se enrubesceu como uma menina e fechou o roupão” discretamente. E ele, que fora quente de desejos, agora, na rua, se acha ridículo por não haver ousado mais. Além do que, o Dr. Sá lhe confirmara que “Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância.”

No dia seguinte Paulo está de volta à casa da heroína. Ao seu primeiro ataque, Lúcia se opõe com duas lágrima nos olhos. Supondo ser fingimento, mostra-se aborrecido e ela reage atirando-se completamente nua em seus braços, já que era isso que Paulo queria. Mas no auge do prazer do sexo, Paulo percebe algo diferente nas carícias de Lúcia: mesmo no clímax do gozo, parece que ela sofria. Sente, na hora, um imenso dó, ao que ela corresponde cinicamente: “- Que importa? Contanto que tenha gozado de minha mocidade! De que serve a velhice às mulheres como eu?” Ele quer pagar-lhe, ela rejeita com um meigo aperto de mão. E ele retira-se realmente confuso com “a singularidade daquela cortesã, que ora levava a impudência até o cinismo, ora esquecia-se do seu papel no simples e modesto recato de uma senhora”.

E as informações que lhe chegam a seu respeito são as piores. O Cunha diz que ela é “a mais bonita mulher do Rio e também a mais caprichosa e excêntrica. Ninguém a compreende. “Nunca fica muito tempo com o mesmo amante, “pois não admite que ninguém adquira direitos sobre ela.” Além do mais, é avarenta. Vende tudo o que ganha. Até roupas. Para Paulo, no entanto, ela parece ser ao contrário de tudo isso. Afinal, ela finge para ele ou já o ama? Paulo fica em dúvida atroz.

Por aqueles dias, numa ceia em casa do Sá, com pessoas (Lúcia, Paulo, Sr. Couto, Laura, Nina, Rochinha, etc…) maldosamente convidadas para transformar a ceia em bacanal, Lúcia desfila toda nua, imitando as poses lascivas dos quadros que estavam nas paredes, ante os olhares voluptuosos dos presentes. Depois, em lágrimas, nos jardins da casa, ela se explica a Paulo. Fez aquilo por desespero, pois ele havia zombado dela momentos antes: “se o Senhor não zombasse de mim, não o teria feito por coisa alguma deste mundo…”E depois porque teria sido uma decepção total, afinal o que Sá pretendia era mostrar a seu amigo Paulo quem era Lúcia. “Não foi para isso que se deu essa ceia?! – explicou Lúcia. E os dois se amaram profundamente, lá mesmo no jardim, á luz da lua, até de madrugada.

Decorridos alguns dias, Paulo de certo modo passa a morar com Lúcia, e, apesar das prevenções e restrições, mais e mais se liga a ela por afeto. Lúcia, por sua vez, já ama Paulo e se entrega e ele como a um dono e senhor. Há momentos de atritos entre ambos. Passageiros, e todos causados pelo egoísmo e incompreensão de Paulo que não entende as profundas transformações que o seu afeto operou nela. E a tal ponto , que ela não suportaria mais a idéia de se lhe entregar na cama, pois sente por ele um amor muito puro e profundo. E ele, levado mais por desejo que por afeto, não consegue aceitar esse comportamento sublime.

As más línguas já comentam que Paulo, além de viver à custa de Lúcia, ainda a proíbe de freqüentar a sociedade. Lúcia que já então procurava viver mais retraída dispõe-se a voltar à vida mundana apenas para salvar-lhe a reputação. Mas Paulo – complicado, sádico, estúpido e chato – não compreende.

Lúcia já não vibra como outrora. Mesmo quando excitada por Paulo. É a doença que já se faz sentir. Paulo não entende essa frieza e por vezes se exaspera. Ela sofre calada pois reconhece que “o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe!”. O grande sentimento que os unia, arrefece, dando lugar a uma amizade simplesmente.

O comportamento de Lúcia é cada vez mais sublime e heróico. Já não existe mais nada da antiga cortesã. E Paulo, por fim, entende essa nobreza de caráter e compreende o porquê das suas recusas. Ela lhe recusava o corpo porque o amava em espírito. E também porque já está doente. Paulo promete respeitá-la de ora em diante.

Lúcia um dia lhe revela todo o seu passado. Chamava-se Maria da Glória. Era uma menina feliz de 14 anos e morava com os pais, quando, em 1850, sobreveio a terrível febre amarela. Seus pais, os três irmãos, uma tia caíram de cama, Ela ficou só. No auge do desespero, resolveu pedir ajuda a um vizinho rico, Sr. Couto, que em troca de algumas moedas de ouro tirou-lhe a inocência. “o dinheiro ganho com a minha vergonha salvou a vida de meu pai e trouxe-nos um raio de esperança.” Seu pai, porém, sabendo da origem do dinheiro, e supondo ter a filha um amante, a expulsou de casa. Sozinha, sem ter aonde ir, foi acolhida por uma mulher, Jesuína, que, quinze dias depois, à conduziu à prostituição, estipulando pela beleza de seu corpo um alto preço. O dinheiro, ela o usava para cuidar do que restava da família: “e eu tive o supremo alívio de comprar com a minha desgraça a vida de meus pais e de minha irmã”.

Uma colega de infortúnio foi morar com ela. Chamava-se Lúcia. Tornaram-se amigas. Lúcia morreu pouco depois. No atestado de óbito, a heroína fez constar que a falecida se chamava Maria da Glória, adotando para si o nome da amiga morta. “Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída.” E todo dinheiro que ganhava, destinava-o à preparação de um dote para sua irmã, Ana, a qual passou a manter num colégio interno depois da morte dos pais.

Agora Paulo compreende ainda melhor as atitudes misteriosas e contraditórias que Lúcia tomava como cortesã. É que esse gênero de vida lhe parecia sórdido e abjeto. Ela suportava como a um martírio, uma autopunição, uma maneira de reparar o seu pecado. Conhecido se passado heróico, ele passa a sentir por Lúcia uma grande ternura e um amor sincero.

Seguem-se dias tranqüilos. Lúcia muda-se para uma casinha modesta e Ana mora com ela. “isto não pode durar muito! É impossível!” É o pressentimento da morte. Lúcia tenta convencer Paulo a se casar com Ana, que já o ama também. Seria uma maneira de perpetuar o amor de ambos, já que ela se julga indigna do puro amor conjugal. Paulo rejeita com veemência em nome do amor que não sente por Ana.

Lúcia aborta o filho que esperava de Paulo. Ela se recusa a tomar remédio para expelir o feto morto, dizendo “Sua mãe lhe servirá de túmulo”. E já no leito de morte, recebe o juramento de Paulo prometendo-lhe cuidar de Ana como sua filha. E morre docemente nos braços de seu amado, indo amá-lo por toda a eternidade.

CARACTERÍSTICAS ROMÂNTICAS NA OBRA

SUBJETIVISMO – o mundo do romântico gira em torno de seu “eu”: do que ele sente, do que ele pensa, do que ele quer. Por isso o poeta e o personagem na ficção romântica estão em contínua desarmonia com os valores e imposições da sociedade e/ou da família.

Em LUCÍOLA encontram-se pelo menos duas grande manifestações desse subjetivismo romântico. A primeira está na própria estrutura narrativa do romance. Trata-se de um romance de “primeira pessoa”, em que a história é narrada do ponto de vista de uma só pessoa. No caso, Paulo. Tudo gira em torno do que ele viu, pensou, sentiu junto a Lúcia. Tudo, portanto, muito individual. Já no cap. I, Paulo esclarece que escreveu essas páginas para se justificar perante uma senhora que estranhou “a minha (dele) excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagância.” Para isso , “escrevi as páginas que lhe envio, as quais a senhora dará um título e o destino que merecerem. É um “perfil de mulher” apenas esboçado.” (José de Alencar, Lucíola, 3ª ed. São Paulo, Ática, 1976, p.11).

A Segunda está na oposição indivíduo x sociedade. Para Edgard Cavalheiro “o divórcio entre o homem e o meio é a pedra de toque de um autêntico espírito romântico. Sobrepor sentimento à razão, o entusiasmo ao raciocínio, o subjetivismo ao objetivismo, são diretrizes que marcaram a escola…” No romance, Paulo e Lúcia ora se insurgem contra as convenções sociais: “Que me importa o que pensam a meu respeito?” (op. cit. p.64), ora satisfazem essas mesmas convenções, embora sempre reafirmando o próprio “eu” e fazendo a sua personalidade.

- “… Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és um celebridade pela beleza. O público, em troca do favor e admiração e que cerca os sue ídolos, pede-lhes conta de todas as sua ações. Quer saber por que agora andas tão retirada.”

- “Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro de praça que não pode recusar quem chega…” (op. cit. p.67-68).

EXALTAÇÃO DO AMOR – O amor é mola mestra da ficção romântica em prosa e verso. Mas o amor sublime, alheio às convenções sociais, feito de sacrifício e, às vezes, de heroísmos.

Em Lucíola, a temática central está exatamente nesta exaltação do amor como força purificadora, capaz de transformar uma prostituta numa amante sincera e fiel.

“- o amor purifica e dá sempre um novo encanto ao prazer. Há’ mulheres que amam toda a vida; e o seu coração, em vez de gastar-se e envelhecer, remoça como natureza quando volta a primavera.”(op. cit. p.83).

“Tive força para sacrificar-lhes outrora o meu corpo virgem; hoje depois de cinco ano de infâmia, sinto que não teria a coragem de profanar a castidade de minha alma. Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora., disse Lúcia após sentir a afeição de Paulo. (Op. cit. p.113).

E o romance termina com esta patética exaltação do amor, balbuciada por um a prostituta regenerada por esse mesmo amor, momentos antes de sua morte: “Eu te amei desde o momento em que te vi! Eu te amei por séculos nestes poucos dias que passamos juntos na terra. Agora que a minha vida se conta por instantes, amo-te em cada momento por uma existência inteira. Amo-te ao mesmo tempo com todas as afeições que se pode ter neste mundo. Vou te amar enfim por toda a eternidade.” (op. cit. p.127)

AMOR E MORTE – Em defesa do direito de amar e ser amado, os heróis e heroínas românticos são capazes de sacrifícios e renúncias incríveis. Diante da impossibilidade da concretização desse amor forte, por injunções da sociedade ou da família, a atitude mais comum entre os românticos é o desejo de morte. Morte natural ou suicídio. As páginas românticas são fartas de tais exemplos: Werther, Eurico, Carlota Ângela, Helena, Iracema, etc. A vida passa a não ter sentido para eles, já que a morte em tais casos é vida.

LUCÍOLA se enquadra perfeitamente nessa linha trágica. O romance é impregnado da idéia de morte pois Lúcia está continuamente a se queixar de uma doença misteriosa que Paulo não compreende nem aceita, supondo-se tratar-se de refinada desculpa para não se entregar a ele sexualmente. Lúcia não acredita nem admite que uma mulher como ela possa usufruir das alegrias e gozos do amor conjugal, dando ao esposo “o mesmo corpo que tantos outros tiveram”. (op. cit. p. 83) Seria uma profanação do verdadeiro amor. “O amor!… o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe! Mas o verdadeiro amor d’alma.” (Idem, p.83)

Diante, portanto, da impossibilidade de realização de um amor puro, só resta a Lúcia, como personagem de um romance genuinamente romântico, uma saída: a morte. Nem mesmo um filho ela merece, pois seria o fruto de um amor vilipendiado. “Um filho, se Deus mo desse, seria o perdão da minha culpa! Mas sinto que ele não poderia viver no meu seio!” (op. cit. p.103). E, numa atitude típica de heroína romântica, Lúcia anseia morrer nos braços do homem amado: “Ainda quando soubesse que morreria nos seus braços… Que morte mais doce podia eu desejar!” (op. cit. p91) “… desejava que fosse possível morrermos assim um no outro… uma só vida extinguindo-se num só corpo!” (op. cit. p.102). E assim se fez. Morreu ao lado do ser amado, dizendo-lhe: “vou te amar enfim por toda a eternidade. (…) Recebe-me… Paulo!” (op. cit. p.127).

SENTIMENTALISMO MELANCÓLICO – o romântico é acima de tudo um sentimental. A poesia, sobretudo, está infestada destas sensitivas melancólicas, pessimistas e sentimentais: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Varela e outros. Aqui e lá fora. Também no romance se encontra uma galeria enorme de heróis e heroínas choramingas, que colocam o sentimento acima da razão, elegendo o coração como norma suprema de conduta pessoal e social. O comportamento de tais personagens é imprevisível,, dependendo de seus estados de alma.

Em LUCÍOLA, por exemplo, um mínimo contratempo é o suficiente para lançar Lúcia ou Paulo na mais profunda tristeza. Numerosas passagens do romance colocam o leitor diante de quadros profundamente melancólicos. Como esta:

“Foi terrível. Meu pai, minha mãe, meus manos, todos caíram doentes: só havia em pé minha tia e eu. Uma vizinha que viera acudir-nos, adoecera à noite e não amanheceu. Ninguém mais se animou a fazer-nos companhia. Estávamos na penúria; algum dinheiro que nos tinham emprestado mal chegara para a botica. O médico, que nos fazia a esmola de tratar, dera uma queda de cavalo e estava mal. Para cúmulo de desespero, minha tia uma manhã não se pôde erguer da cama; estava também com a febre. Fiquei só! Uma menina de 14 anos para tratar de seis doentes graves, e achar recursos onde os não havia. Não sei como não enlouqueci.”(op. cit. p.110)

E esta outra, onde Lúcia se fez passar por uma amiga morta para aliviar o sofrimento dos pais: “Lúcia morreu tísica; quando veio o médico passar o atestado, troquei os nosso nomes., Meu pai leu no jornal o óbito de sua filha; e muitas vezes o encontrei junto dessa sepultura onde ele ia rezar por mim, e eu pela única amiga que tive neste mundo. Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída.” (op. cit. p.112).

Muitas das atitudes tomadas por Paulo ou Lúcia são próprias de pessoas que se deixam guiar pelo sentimento. Esta, por exemplo, esquisita e inexplicável de Lúcia ” – Iremos juntos!… murmurou descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe servirá de túmulo.” (op. cit. p. 126).

Enfim, o romance todo, do início ao fim, está impregnado de uma atmosfera melancólico-sentimental.

ILOGISMO – Para Domício Proença tal ilogismo, na literatura romântica, “leva, inclusive, a uma instabilidade emocional traduzida em atitudes antitéticas ou paradoxais: alegria e tristeza, entusiasmo e depressão.”

Tal ilogismo parece ser um dos pontos altos de LUCÍOLA. Os paradoxos; o comportamento ora excêntrico ora dúbio de Lúcia, ora virtuoso, ora pecaminoso que vai lançando Paulo numa dúvida angustiante: a própria duplicidade comportamental de Paulo, generoso e mesquinho, compreensivo e intransigente, correto e pilantra; tudo isso dá à intriga do romance um atrativo todo especial que, por sua vez, ora atrai ora aborrece o leitor.

Há ainda outras manifestações de Romantismo no romance, tais como, imaginação e fantasia, culto da natureza, senso do mistério, exagero. Mas são de importância secundária.

CARACTERÍSTICAS DE JOSÉ DE ALENCAR

LIRISMO – Não no sentido de gênero literário, mas no sentido de visão lírica da realidade. Nesse aspecto, Alencar é um escritor eminentemente lírico, pois é delicado, terno, de sensibilidade fina, imaginação fértil, estilo cheio de graça e harmonia. A realidade , principalmente a natureza, sempre que possível, é embelezada poeticamente na sua pena. A maioria dos críticos são concordes em que ele criou seu estilo, expresso numa musicalidade toda sua.

Há um lirismo bem bucólico nesta passagem de LUCÍOLA: “Sentamo-nos sobre a relva coberta d flores e à borda de um pequeno tanque natural, cujas águas límpidas espelhavam a doce serenidade do céu azul. Lúcia tirou do bolso seu crochê e o novelo de torçal, e continuou uma gravata que estava fazendo para mim. Enquanto ela trabalhava, eu arrancava as flores silvestres para enfeitar-lhe os cabelos; ou arrastava-me pela relva para beijar-lhe a ponta da botina que aparecia sob a orla do vestido.” (p.105)

E nesta outra há graça, ternura, sentimento: “Toquei com os lábios a raiz daqueles cabelos sedosos que ondulavam com o sopro de minha respiração. Ana teve um estremecimento íntimo; e banhou-se na onda de púrpura que descendo-lhe da fronte, derramou-se pelas espáduas roseando a branca escumilha.” (p. 120)

GOSTO PELA DESCRIÇÃO – A descrição parece ser o forte de Alencar. Principalmente dessas três realidades: paisagem, personagem e vestuário feminino. A descrição da paisagem sobressai em qualidade e quantidades nos seus romances regionalistas e indianistas. Mesmo nos urbanos, sempre haverá um parêntese reservado para a paisagem (natureza) ou cenário (salões, ambientes). Em LUCÍOLA, de quando em quando aparece a natureza como a aliviar o leitor das tensões dos dramas humanos.

Quanto à descrição dos personagens, Alencar parece se preocupar antes com o aspecto externo para depois chegar ao temperamento. “O físico, ainda antes das ações e intenções, define seus personagens. Para mostrar-lhes a alma, o autor nos adverte sobre seus planos e projetos, mas primeiro lhes descreve rosto e corpo, olhos, voz, gestos. E tem sempre o cuidado de acentuar traços que lhe parecem reveladores de defeitos ou virtudes, roteiros para o conhecimento psicológico” (M. Cavalcanti Proença, op. cit. p.47).

Antes mesmo de o leitor saber quem era ela, já Alencar lhe mostrou o retrato de Lúcia no cap. II: “Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na mimosa aparição.” (p. 13). Na passagem seguinte Alencar como que nos conduz do exterior ao interior de Lúcia: “O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas, nadavam como cisnes naquele mar de leite, que ondeava sobre formas divinas. A expressão angélica de sua fisionomia naquele instante, a atitude modesta e quase íntima, e a singeleza das vestes níveas e transparentes, davam-lhe frescor e viço de infância, que devia influir pensamentos calmos, senão puros.” (p.27).

No que concerne ao vestuário feminino é inegável a influência que Balzac exerceu em Alencar. E Antônio Cândido confirma: “Alencar não denota a influência marcada do mestre francês apenas na criação de mulheres cujo porte espiritual domina os homens, ou na mistura do romanesco e da realidade. Denota-a principalmente na intuição da vestimenta feminina, que aborda como elemento de revelação da vida interior: os vestidos de Lúcia, por exemplo, desde o discreto, de sarja gris, com que aparece na festa da Glória, até a chama de sedas vermelhas com que se envolve num momento de desesperada resolução, são tratados com expressivo discernimento.” (op. cit. p.234).

Nesta citação de LUCÍOLA, Alencar mostra que realmente entende do “babado”: “Lúcia fitou-se por muito tempo, e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver suas belas espáduas, de um filó alvo e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se ela tivesse resistido ao fruto proibido. Uma grinalda de espigas de trigo, cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a vasta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam.” (p.71).

COMPARAÇÕES – É um corolário do gosto pela descrição. As comparações de Alencar, geralmente, referem-se aos personagens, ora em seus detalhes físicos, ora em seus estados de alma, ora em seus atributos morais. O segundo termo da comparação é colhido, na esmagadora maioria das vezes, de elementos da natureza: reino vegetal, animal ou mineral. Uma confirmação do que se disse está neste trechinho: “Como as aves de arribação, que tornando ao ninho abandonado, trazem ainda nas asas o aroma das árvores exóticas em que pousaram nas remotas regiões, Lúcia conservava do mundo a elegância e a distinção que se tinham por assim dizer impresso e gravado na sua pessoa.” (p.117).

DESARMONIAS – É mais ou menos aquilo que atrás se chamou de “ilogismo”. Lá, tal ilogismo foi mostrado como uma das características românticas no livro. Aqui, as “desarmonias” aparecem como uma das características do estilo alencariano. Quem as explica é o mestre Antônio Cândido: “Outro fator dinâmico na obra de Alencar é a desarmonia, o contraste duma situação, duma pessoa ou dum sentimento normal, e tido por isso como bom, com uma situação, pessoa ou sentimento discordante. Sob forma mais elementar, é o choque do bem e do mal. (…) Em Lucíola, a luxúria do velho Couto, e mais tarde a prática do vício, torcem a personalidade de Lúcia. A forma refinada desse sentimento da discordância é certa preocupação com o desvio do equilíbrio fisiológico ou psíquico. Relembre-se a depravação com que Lúcia se estimula e castiga ao mesmo tempo, e cujo momento culminante é a orgia promovida por Sá – orgia espetacular, com tapetes de pelúcia escarlate, quadros vivos obscenos, flores e meia luz, ultrapassando o realismo qualquer outra cena em nossa literatura séria.”(op. cit. p.230).

Já se disse atrás que o ilogismo, ou seja, o contraste de situações, pessoas ou sentimentos constitui o aspecto mais significativo na intriga romanesca de LUCÍOLA. E não será difícil ao leitor observar a presença dessas desarmonias ou contrastes no livro. Dentre muitos exemplos que se poderiam dar de “desarmonia” de situações, está o contraste entre Maria da Glória e Lúcia: aquela, pobre, simples, escondida; esta, rica, caprichosa, pública. Mas isso já é um conflito entre o passado e o presente.. Porém, os contrastes mais importantes na técnica narrativa do livro são aqueles relacionados com pessoas e sentimentos. De Paulo e Lúcia, naturalmente.

A mesma Lúcia que compôs recatadamente o roupão ante os olhos ávidos e voluptosos de Paulo que vislumbravam o simples contorno de um seio foi capaz de desfilar nua na ceia em casa do Sá. Ela é assim: contraditória. Ama e odeia. Atira-se ao vício e tende para a virtude, segundo suas próprias palavras: “Eis a minha vida… deixara-me arrastar ao mais profundo abismo da depravação; contudo, quando entrava em mim, na solidão de minha vida íntima, sentia que eu não era uma cortesã como aquelas que me cercavam. Ficaram gravados no meu coração certos germes de virtudes…”(p. 112).

Também Paulo apresenta um comportamento paradoxal. Ora ele deseja violentamente Lúcia ora promete respeitá-la. Ofende-a e pede-lhe perdão; dá-lhe liberdade e a quer só para si; despreza-a e sente dela pungente ciúme; vê nela uma prostituta refinada e uma menina de quinze anos, pura e cândida. Também Paulo é contraditório: vil e magnânimo, como todo bípede implume e social chamado homem.

ESTRUTURA DA OBRA

TÉCNICA NARRATIVA – Por técnica narrativa se entende o conjunto de recursos utilizados pelo autor para fazer o enredo (a ação) chegar até o leitor.

LUCÍOLA é um romance de primeira pessoa, ou seja, quem narra a história não é Alencar diretamente. Ele o faz por meio de um personagem que viveu os episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em cartas dirigidas a uma senhora (por quem o autor se faz passar) conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez o livro. “Eis o destino que lhes dou; quanto ao título, não me foi difícil achar. O nome da moça, cujo perfil o senhor me desenhou com tanto esmero, lembrou-me o nome de um inseto. “Lucíola” é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d’alma?”

No capítulo I, o narrador explica a razão das cartas: “A senhora estranhou, na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagâncias”. (p.11).

Na estrutura narrativa de LUCÍOLA, portanto, pode-se observar o seguinte:

a) há um autor real, José de Alencar;

b) um autor fictício, a senhora G. M., destinatária das cartas de Paulo.

c) Um narrador, Paulo, com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los e tirar-lhes conclusões.

À medida que transmite os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para a análise de Lúcia e dele mesmo.

No romance analisado, os fatos são apresentados sob dois pontos de vista, dois ângulos diferentes: o de Paulo/personagem que transmite ao leitor as sensações vividas com Lúcia e o de Paulo/narrador que, por vezes, interrompe a narrativa fazendo reflexões ou dirigindo-se à destinatária de suas cartas.

O enredo abrange um período de aproximadamente seis meses. Foi o que durou o namoro do par romântico. Às vezes, o autor avança a narrativa com soluções bem simples: “Essa vida calma e tranqüila, remanso de uma existência tão agitada, durava cerca de um mês.”(p.1116). Em outras, retarda-a: dedicou três capítulos para a ceia em casa de Sá (capítulos VI, VII e VIII).

TÉCNICA DE COMPOSIÇÃO – No estudo de um romance é costume observar, além da técnica narrativa do autor, a ação, o tempo, o lugar e as personagens.

AÇÃO – Já se disse antes que a ação de LUCÍOLA (=enredo) gira em torno de uma história entre Paulo e Lúcia, com todos os ingredientes de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs depravadas, a morte como única saída para um amor verdadeiro porém impossível, etc.

A ação num romance, como um filme, se caracteriza por uma “simultaneidade dramática”. Explicando: são vários episódios colhidos, pelo autor, numa realidade social ou pessoal e interligados no romance. Tais episódios ocorrem simultaneamente, como na vida real. Mas esta simultaneidade, o autor confere maior evidência a um dos “casos” que funciona como núcleo central da narrativa. Há, portanto, no romance um episódio central em torno do qual giram outros secundários.

Em LUCÍOLA, o núcleo central da narrativa se concentra em Paulo e Lúcia, ora como duas individualidades com passado e presente próprios, ora como o “par romântico”. E se concentra com tal intensidade, (afinal o narrador é exatamente Paulo – o herói, o mocinho – que ama a Lúcia – a heroína) que os episódios envolvendo os demais personagens ficam totalmente ofuscados.

No núcleo central – a história de amor entre Paulo e Lúcia – vão influenciar principalmente as posições do Sr. Couto e de Ana: aquele no sentido negativo de atrapalhar este amor; esta, no positivo, como símbolo de uma quase perfeita perpetuação do amor dos dois na terra.

TEMPO – Significando “época retratada”, é o século passa: 1855 – “A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855″. Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro o Rio de Janeiro da época de D. Pedro II, com seus salões, sua burguesia, suas vitrinas chiques na Rua do Ouvidor com mercadorias elegantes vindas de Paris ou Londres, seus tílburis, seu vestuário, etc.

Como tempo narrativo, ele é eminentemente “cronológico”. Ou seja, em LUCÍOLA os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal, com uma seqüência natural de horas, dias, meses, anos. Só há um momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a Paulo seu passado. (Cap. XVIII eXIX). E em dois momentos ele avança: o capítulo I e o finalzinho do último revelam o estado de alma de Paulo seis anos após a morte de sua querida Lúcia: “Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido de minhas lágrimas. (…) Hás seis anos que ela me deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará eternamente.” (p. 127)

LUGAR – O cenário onde se desenrola a ação é o Rio de Janeiro. Há referências de seus bairros (Santa Teresa), ruas (das Mangueiras), população, festas (a da Glória), teatros, lojas elegantes, etc.

É curiosa a relação entre os locais e o comportamento amoroso-sexual de Paulo e Lúcia, agindo aqueles no sentido de aproximação ou afastamento, de maior ou menor realização do casal. O quarto de Lúcia é um local de luxúria: “… e fazendo correr com um movimento brusco a cortina de seda, desvendou de repente uma alcova elegante e primorosamente ornada.”(p. 23) Das várias vezes que eles se uniram sexualmente neste luxuoso aposento, nenhuma, parece, satisfez de fato o casal. A primeira delas terminou assim: “Ao delírio sucedera prostração absoluta, orgasmo da constituição violentamente abalada. Vendo então este corpo inerte e pasmo, com os olhos vítreos e as mãos crispadas, tive dó.”(p.25)

O segundo encontro já foi totalmente diferente, em local e desfecho. Foi nos jardins da casa do Dr. Sá, onde Lúcia desfilara nua perante os convidados. O cenário é bem ao gosto do romantismo: a natureza. O leito é bucólico: “Fomos através das árvores até um berço de relva coberto por espesso dossel de jasmineiros em flor. Lúcia está vibrando: “- Sim! Esqueça tudo, e nem se lembre que já me visse! Seja agora a primeira vez!… Os beijos que lhe guardei, ninguém os teve nunca! Esse , acredite, são puros!” (p.47). E o clímax foi aquele que só um par enamorado consegue haurir do sexo: “Não fui eu que possuí essa mulher; e sim ela que me possuiu todo, e tanto, que não me resta daquela noite mais do que uma longa sensação de imenso deleite, na qual me sentia afogar num mar de volúpia. ” (p.47)

Quando Lúcia passou a morar numa casa pequena e pobre, em Santa Teresa, em companhia de sua irmã Ana, menina inocente, não mais houve união carnal entre eles. É que os dois já estavam unidos por um amor espiritual. Uma afeição muito pura unia aquelas duas almas. E tanto a simplicidade do local que “lembra o espaço feliz de sua infância em São Domingos” quanto a inocência da menina não comportava mais a depravação do sexo.” O seu beijo quase de irmã apenas de longe em longe bafejava-me a fronte.” (p.120)

PERSONAGENS – Críticas e mais críticas têm sido feitas à falsidade de seus heróis e à fantasia descontrolada com que Alencar maneja o destino. Por exemplo, essa de Olívio Montenegro, seu ferrenho crítico: “Um romancista com a imaginação de José de Alencar pode pintar uma natureza extraordinária, como natureza virgem do Brasil e dar uma impressão de grandeza, de invariável grandeza. O elemento humano, porém, ninguém o representa verdadeiramente com o capricho da sua fantasia. Tem-se que observar, descobrir o homem. E essa descoberta é que em verdade ninguém reconhece nos romances de Alencar. Ele procurou criar o homem não à sua própria semelhança, como foi uma humildade do próprio Deus, mas à semelhança de sua paisagem, e disforme como ela.”(in Romance Brasileiro, 2ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1953, p.54). Falta-lhes densidade psicológica, segundo o crítico citado. Mas é preciso lembrar-se de que o romantismo é dado à exploração dos sentimentos dos personagens sem a preocupação de inquirir pela causa última e profunda dos mesmos. É o que explica M. Cavalcanti Proença: “Não há que buscar-lhe, na obra, (de Alencar) poços psicológicos, subterrâneos de paixões e de instintos, abismos de dúvidas filosóficas tragando sentimentos. Apesar de “fisiologistas”, não eram esse os seus temas. Ele foi um visual, um apaixonado das cores vivas, das superfícies iluminadas, das formas harmoniosas. Como acentua Augusto Meyer, “não acode a ninguém procurar nas suas páginas outra coisa, senão o encanto dessa mesma superfície. É belo o espetáculo e, como tal, satisfaz”. (p.75).

Em Lucíola, uma personagem apresenta grande complexidade psicológica, a par do idealismo romântico com que foi concebida:

a) LÚCIA – Sua principal característica é a contradição. Como cortesã era a mais depravada. Basta que se lembre da orgia romana em casa de Sá. No entanto, a prostituição era-lhe um tormento constante, já que não se entregava totalmente a ela. E os atos libidinosos constituíam para ela verdadeira autopunição aliada à angustiante sentimento de culpa.

Coexistem nela duas pessoa: Maria da Glória, a menina inocente e simples, e Lúcia, a cortesã sedutora e caprichosa. No livro, sobressai a Lúcia, Lúcifer, onde aparece 348 vezes contra 10 vezes como Maria da Glória, anjo. Tal disparidade realça o motivo do romance: à proporção que Lúcia vai amando e sendo amada por Paulo, ela vai assumindo a Maria da Glória, sua verdadeira personalidade. E reencontra assim, através dele, a dignidade e inocência perdidas.

Pode-se expressa essa duplicidade da seguinte maneira:

LÚCIA, mulher, depravação, luxúria, sentimento de culpa, prostituição, caprichosa, excêntrica, rejeita o amor, demônio.

MARIA DA GRAÇA, menina, pureza, ingenuidade, dignidade, inocência, simples, meiga, tende para o amor, anjo.

Perdida a virgindade física, Lúcia, por meio da compreensão e amor de Paulo, tende para a virgindade do espírito. “Elas não sabem, como tu, que eu tenho outra virgindade, a virgindade do coração!” (p.119). Para isso renuncia a qualquer amor sensual. Mesmo ao de Paulo, de quem fora amante e a quem passou a negar um simples beijo. Depois que ela o conheceu, não se entregou a nenhum outro homem. É por isso que não cria no amor de Margarida, de “A DAMA DAS CAMÉLIAS”, porque ela não negou ao seu amado Armando o corpo que tantos já haviam comprado.

E Lúcia recupera aos 19 anos a Maria da Glória que perdera aos 14. “Nada perturbava a serenidade de Lúcia. Parecia realmente que sua alma cândida, muito tempo adormecida na crisálida, acordara por fim, e continuara a mocidade interrompida por um longo e profundo letargo. (…) Ninguém diria que essa moça vivera algum tempo numa sociedade livre.” (P.116).

Mas essa transformação completa custou-lhe penosos sacrifícios e sobretudo muita incompreensão inicial por parte de Paulo. “Incompreensível mulher! (…) Compreendo hoje as rápidas transições que se operavam nessa mulher; mas naquela ocasião, como podia adivinhar a causa ignota que transfigurava de repente a cortesã depravada na menina ingênua, ou na amante apaixonada!”(p. 51).

Seus traços físicos: cabelos e olhos pretos, a pele pálida. Sua expressão, contudo, lembra ao leitor sua dualidade de caráter: o olhar ora é “eloqüente, raio voluptuoso”, ora é límpido, raio de luz de sua alma”. É bem o ideal de beleza romântica, “com sua virgindade de alma tão pura e tão absoluta, que a não tisnaram os pecados do corpo. Por isso, mesmo nas horas em que mais lhe esplende a glória de cortesã, o romancista a veste simbolicamente de branco.”

Se algum leitor não entender bem a complexidade da personagem Lúcia, como o fez Paulo no início do romance, não é de se estranhar, pois afinal ela mesma se auto-definiu: “É difícil conhecer-me; mais difícil do que pensa. Eu mesma, sei o que às vezes se passa em mim? Não repare nestas esquisitices!”(p. 51).

PAULO – É um provinciano de Pernambuco, 25 anos, que veio tentar se estabelecer no Rio de Janeiro. O romance não esclarece se ele é ou não formado. Sugere apenas. É o narrador da história e como tal faz desviar a atenção do leitor para Lúcia e outros aspectos, não revelando certas informações suas. Os detalhes físico, por exemplo. Coisa, aliás, rara em José de Alencar, tratando-se de personagem central.

Traçando o perfil de Lúcia, ele acaba por revelar também os eu: espírito observador e sensível, foi o único a compreender o estranho caráter de Lúcia. Seu temperamento é reservado sem ser tímido: “… é hábito meu, desde que entrei no mundo, não admitir os estranhos à intimidade de minha vida, ainda mesmo quando se trata de objetos sem conseqüência. Só dispo a minha alma entre amigos”. E como ele não possui reais amigos no Rio, nuances de sua personalidade conhecem-se por deduções .

Suas reações psicológicas são expressas em suas reflexões: “Que miserável animalidade havia em mim naquela noite! Quando essa pobre mulher atingia o sublime do heroísmo e da abnegação, eu descia até a estupidez e à brutalidade!” (p.74). Ou nessa: “Não conheço mais estúpido animal do que seja o bípede implume e social, que chamam homem civilizado.” (p.76)

A sua caminhada em direção ao amor pela heroína foi lenta. No início, o que o impelia para ela era a tração sexual. Paulo, então, não a entende e transmite ao leitor suas incertezas e desconfianças. “Se eu amasse essa mulher… mas tinha apenas sede de prazer; fazia dessa moça uma idéia talvez falsa… ” (p.118). Tais desconfianças, por vezes, eram-lhe inoculadas pela sociedade através de alguns representantes – Dr. Sá, Sr. Couto, Cunha. “Cunha tinha razão, pensei eu; a cupidez e a avareza são as molas ocultas que movem este belo autômato de carne.” (p.50). E chega mesmo a ser violento e sádico com ela. Isto se deduz de várias passagens, como: “Esta noite a senhora não se pertence: é um objeto, um bem do homem que a vestiu, que a enfeitou e cobriu de jóias, para mostrar ao público a sua riqueza e generosidade.”(p.74). Outras vezes, sentiu foi dó: “Sentia profunda compaixão por essa mulher. O seu pranto me enterneceu; chorei com ela.” (p.101). Houve um período em que a afeição de ambos se arrefeceu. Paulo já a admira e dedica-lhe grande respeito e amizade: “Entramos então numa nova fase de nossa mútua existência, fase original e curiosa que me faria rir quinze dias antes. Com efeito, quem poderia julgar possível uma amizade fraternal e pura entre duas criaturas que meses antes trocavam as mais ardentes expansões da sensualidade?” (p.103). Para no final devotar-lhe sincero amor a ponto de vibrar com um possível filho de ambos: ” -Um filho! Mas é um novo laço e mais forte que nos prende um ao outro. Serás mãe, minha querida Maria?” (p.125).

É um ingênuo personagem romântico. Apesar de se declarar pobre e até se vexar por isso, vive byronicamente, de sonhos, de amor.

Os demais personagens são secundários face aos dois protagonistas.

Dr. SÁ e CUNHA – Amigos de Paulo, sendo aquele desde a infância. Encarnam a moral burguesa e suas máscaras: austera com os outros, benigna consigo. Não possuem personalidade bem delineada no livro. Ambos vêem em Lúcia apenas a prostituta.

COUTO e ROCHINHA – O primeiro é um velho dado a jovem galante. Encarna a obsessão sexual e a velhice. Representa a sociedade que explora e corrompe. Foi quem aproveitou a necessidade e inocência de Lúcia. O segundo é um jovem de 17 anos, tez amarrotada, profundas olheiras, velho prematuro. Libertino precoce. Eles aparecem assim no romance: “O contraste do vício que apresentavam aqueles dois indivíduos: o velho galanteador, fazendo-se criança com receio de que o supusessem caduco; e o moço devasso, esforçando-se por parecer decrépito, para que não o tratassem de menino; essa antítese vivia devia oferece ao espectador cenas grotescas.” (p.33).

LAURA e NINA – São meretrizes, como Lúcia, mas sem sua duplicidade de caráter. Não são capazes de “descer tão baixo” porém, não possuem a “nobreza e altivez” da protagonista.

JESUÍNA e JACINTO – Aquela, é mulher de 50 anos, seca e já encarquilhada. Foi quem recolheu Lúcia quando seu pai a expulsou de casa e a iniciou na prostituição. Este, é um homem de 45 anos, e “vive da prostituição das mulheres pobres e da devassidão dos homens ricos”. (p.111). Por seu intermédio Lúcia vendia as jóias ricas que ganhava e enviava o dinheiro à família pobre. É quem mantém a ligação misteriosa no livro, entre Lúcia e Ana. Enfim, é quem cuida dos negócios dela.

ANA – É a irmã de Lúcia, que a fez educar num colégio até os doze anos como se fosse sua filha. “Era o retrato de Lúcia, com a única diferença de ter uns longos e de louro cinzento nos cabelos anelados. Ana já conhecia a irmã e a amava ignorando os laços de sangue que existiam entre ambas.” (p.114). Lúcia tenta casá-la com Paulo para ser uma espécie de perpetuação e concretização de seu amor por ele: “Ana te darias os castos prazeres que não posso dar-te; e recebendo-os dela, ainda os receberias de mim. Que podia eu mais desejar neste mundo? ” (p.124).

PROBLEMÁTICA APRESENTADA

Vicente Ataíde, em interessante estudo que fez de LUCÍOLA no Suplemento Literário de 28/2/1976 do “Minas Gerais”, apresenta o eixo da estrutura narrativa do romance da seguinte maneira:

Paulo quer Lúcia, mas ele possui impedimento de aproximação; Lúcia quer Paulo, mas também possui impedimentos. É fácil, agora, entender como se arma o conflito do romance:

PAULO X LÚCIA

Há motivos de aproximação e de afastamento entre ambos. E do jogo aproximação-afastamento. Chegamos a uma composição final. A composição é desejada por ambos, mas é preciso que antes muitas arestas sejam aparadas. Não é graciosamente que o ser humano se completa a se acha, mas através de muita luta e muito erro (penitência para superação dos defeitos.).”

Esta colocação do foco narrativo do romance vem confirmar idéias anteriores, onde se mostrou que a história de Paulo e Lúcia está vazada de situações desarmônicas. Tais situações podem ser melhor entendidas quando sintetizadas em algumas oposições que parecem predominar na obra como idéias centrais. Tais como:

O DESNÍVEL DA SITUAÇÃO SOCIAL – Retratando o Rio de Janeiro do segundo Império, “Alencar revela os padrões de conduta e valores de uma sociedade em transformação, movida sobretudo pelo dinheiro.” É a famosa moral burguesa,. Para a professora Neusa Pinsard, da Universidade de São Paulo, “em Senhora e LUCÍOLA os conflitos das personagens e entre personagens são determinados pelo confronto do indivíduo com essa sociedade”.

Ora, Cavalcanti Proença afirma que José de Alencar, revolucionário em sua linguagem, insubmisso aos modelos literários da metrópole, respeitou reverentemente e fez seus heróis respeitarem as convenções sociais. E de acordo com tais convenções, há um desnível enorme entre a situação social de Paulo e Lúcia. Esta é prostituta e como tal é vista e rejeitada por todos, inclusive por Paulo, no início. Trata-se de um impedimento sério na aproximação de ambos. Tão sério que acaba por impedir a concretização social (casamento, geração de filhos) do amor do casal. Lúcia errou e deve pagar por isso perante a sociedade. As convenções da moralidade burguesa e da Escola Romântica assim o exigem. O casamento como “happy end” do romance romântico não se realiza. Lúcia deve morrer. “Pela própria ética do escritor, que não faz concessões à queda irrecuperável absolutamente. Se um modo houvesse de salvar Lúcia, ela seria salva. Mas esse modo não existe”, diz Vicente Ataíde. E a professora Neusa o confirma: “Lúcia morre por causa do filho de Paulo, fruto do amor carnal, proibido e condenado pela sociedade e por ela mesma”. (Cf. “Apresentação” da edição usada nesta análise).

Uma das problemáticas centrais levantadas no livro, parece, portanto, esta: a imposição das convenções sociais, criando obstáculos ao par amoroso, sacrificando-lhe a realização de um amor que não se adequava aos seus padrões rigorosos, se bem que por vezes hipocritamente condescendentes.

O CONFLITO DO BEM E DO MAL – Das muitas oposições enfocadas no livro, esta é a mais importante, agindo como base do enredo e do foco narrativo. Trata-se de um tendência própria do Romantismo que se traduz na “desarmonia” de situações e sentimentos.

Há uma dualidade no caráter de Lúcia: de um lado a mulher, meretriz, depravada, desprezada pela sociedade, encarnacão do MAL; de outro, a menina inocente que ainda teima em substituir nela por mais terríveis que tenham sido os imperativos do vício naquela alma. É a permanência do BEM. “Havia no meu coração certos germes de virtude que eu não podia arrancar, e que ainda nos excessos do vício não me deixavam cometer uma ação vil.” (p.112). E durante todo o tempo, pretende o autor convencer o leitor da “criatura angélica” que habita o corpo da pecadora, da “mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d’alma”. E é essa Lúcia de “coração virgem”, purificada, que renasce nos últimos capítulos graças ao amor de Paulo. Ë o triunfo do BEM sobre o MAL, coerente com os cânones da ESCOLA ROMÂNTICA.

A VITÓRIA DO AMOR – E chega-se, afinal, à temática básica de LUCÍOLA. A intriga é calcada em assunto romântico: A situação social da mulher em face do amor. Do “amor” como o concebe o Romantismo: sublimado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de heroísmos, que está acima dos fatores sócio-econômicos, que triunfa apesar das convenções sociais.

Em LUCÍOLA, o triunfo do amor não foi na linha do “happy end”. Lúcia “passará por um processo de transformação, ou renascimento, que fará desabrochar a adolescente pura e ingênua que fora um dia, ao mesmo tempo que irá eliminando a cortesã impudica”. E, conclui a professora Neusa Pinsard, “a protagonista alcança, portanto, a purificação através do amor espiritual, que não pode ser contaminado e profanado pela mais leve sombra de desejo físico”.

É a vitória do amor, numa outra perspectiva. É a temática central do romance: O AMOR COMO FORÇA REGENERADORA.

O romance, na sua intriga e temática, bem como no posicionamento das personagens, pode ser visualizado graficamente assim:

Na busca mútua de Lúcia e Paulo, há personagens que se posicionam como obstáculos, no sentido de impedir o surgimento do amor dos dois: Couto, Sá, Cunha, Rochinha. Outros são basicamente neutros: Jesuína, Jacinto, Laura e Nina. E há uma, Ana, que se coloca no sentido de aproximar o par romântico, a tal ponto de, conforme o desejo de Lúcia, ser um símbolo de perpetuação, na terra, do amor do casal.

EQUIPE FERANET21


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